29 agosto 2008

O dia em que conheci o garçom Nelson
14 de dezembro


Estava andando pelo Leblon e resolvi refletir. Eu acho que não sou dos adolescentes mais normais, eu definitivamente não sou. Têm pessoas que fazem yoga, outras procuram centro espírita, eu gosto de refletir andando. Eu moro no Leblon, na minha opinião, o melhor lugar para se viver do Rio de Janeiro. Admito que não morei em todos os outros bairros do município para afirmar com tanta convicção, mas é o melhor sim, isso é sabido! Eu não preciso ser morador da Tijuca ou do Jardim Botânico pra saber que não quero morar lá. O bairro me agrada. Sem excluir os moradores dos outros bairros, quem nunca, caminhando pelo Leblon em um dia qualquer, desses que você chega a procurar o que fazer devido ao tédio, se sentiu um personagem do Manoel Carlos? Isso é divertido, eu gostaria de ser um personagem do Manoel Carlos, menos a Helena. Por dois motivos. Primeiro que não estou a fim de me travestir, gosto de ser hétero. E segundo que a Helena é uma mala (além de ser feita sempre pelas piores atrizes da novela, salvo a Regina Duarte). Enfim, eu gosto do Leblon e também do Manoel Carlos. Sou morador da General Artigas há dez anos (moramos eu e minha mãe), a rua da Rio Lisboa (a padaria). Moro nesse mesmo local desde os meus sete anos de idade e, desde aquela época, já não era muito normal. Hoje tenho dezessete e não consigo terminar a história que comecei na primeira frase do texto. Não sou normal, não. Enfim...
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Estava andando pelo Leblon e resolvi refletir. Não sei por qual motivo, comecei a pensar na Dona Graça, uma moradora do meu prédio. Nenhum porteiro sabe dizer desde quando aquela mulher mora lá. A eterna moradora do terceiro andar. Meio chatinha, mas também não oferece perigo. Uma coroa inofensiva. Coroa não, uma velha inofensiva. Ela pode ser chamada até de idosa, uma idosa inofensiva. Uma vez ela deu uma festa no trezentos e dois só com velhas e velhos, foi até divertido porque os velhos começaram a se embebedar e dançar funk. De quem será que era o cd de funk? Enfim...
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Estava andando pelo Leblon e resolvi refletir. Eu estava de férias do meu supletivo no CEL, para uns, Centro Educacional da Lagoa e para outros, Centro de Entretenimento e Lazer. Definitivamente, para mim era Centro de Entretenimento e Lazer. Meus amigos estavam quase todos viajando e eu fiquei por aqui, não faço a menor idéia do motivo. Estava realmente entediado caminhando pelas calçadas de pedra portuguesa. Enfim...
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Estava andando pelo Leblon e, depois de pensar no Manoel Carlos, na Rio Lisboa, na moradora do trezentos e dois, na festa de funk para idosos, nas minhas férias e no meu supletivo, resolvi refletir. Era dia quatorze de dezembro, calor no Rio de Janeiro, muito calor. Tive uma das visões mais desagradáveis da minha vida, mas antes parei em um bar na Rua General Venâncio Flores para tomar uma cervejinha. Parei ali pelo balcão mesmo, acho que me passaria por autista sentado sozinho em uma mesa numa tarde de sol de dezembro. Fiquei no balcão. Eu estava gostando do balcão. Fala – foi a maneira sutil que fui atendido pelo simpaticíssimo garçom do bar. O nome dele era Nelson, estava escrito no crachá. Um cara estranhíssimo, com um nariz enorme e cheiro não muito bom. Eu não respondi, podia não ser comigo. Ele encheu os pulmões e com força repetiu – fala! – um pouquinho menos sutil. Eu disse – fala! – cumprimentando um desconhecido. Vai querer o quê – me perguntou com, eu gosto de acreditar nisso, um pequenino sorriso no canto esquerdo da boca.
- Eu?
- Você está de sacanagem?
- O senhor não deveria ser tão ríspido com seus clientes.
- Eu não agüento mais os meus clientes!
- Então por que o senhor trabalha aqui?
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Eu não queria estar envolvido com isso, realmente não queria. É aí que entra a tal visão mais desagradável da minha vida. O garçom Nelson tirou uma arma do seu bolso direito e, sem pensar nem refletir muito, puxou o gatilho em sua própria boca. Normal, para um personagem do Manoel Carlos talvez fosse normal, mas, para um adolescente, julgado por si mesmo, desequilibrado, que sobrou no Rio de Janeiro durante as férias de dezembro, isso não era legal. Era bem desagradável. Eu, com minha leve vontade de beber uma cerveja, dei o pontapé para a morte de um homem. Contribuí para a morte de Nelson. Logo a multidão já havia juntado em torno do bar querendo saber o que tinha acontecido. Enfim...
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Fui andando para minha casa, tentando refletir e me tocando de que nem maior de idade eu era para sentar no balcão de um bar e pedir uma cerveja para qualquer narigudo que me dissesse – fala!
FIM.

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