30 agosto 2008

O dia em que acordei e fui pra rua
14 de dezembro


Um sapo gigante, de uns dois metros de altura, estava apoiado no meu armário. Ele usava um chapéu de couro e fumava uma cigarrilha de chocolate. Suas verrugas estavam ficando cada vez maiores. Me encarou – me beija – disse com luxúria. Eu não gosto disso, mas pensei em beijar o sapo. Graças a Deus o despertador tocou antes da parte romântica do sonho. Normal, era minha imaginação e eu acordei. Que desagradável, não conseguia parar de pensar naquela imagem horrorosa. Quase tive ânsia de vômito imaginando o que aconteceria se eu não tivesse acordado. Que desagradável.

No banheiro, fazendo questão de não me olhar no espelho, botei pasta de dente na escova e fiquei escovando os dentes andando pela casa. Minha mãe, graças a Deus, já estava no trabalho. Iria me matar se descobrisse que eu tinha acordado depois do meio dia. Não sei porquê, mas minha mãe detesta que eu acorde tarde. Pelo amor de Deus, era dia quatorze de dezembro, eu estava de férias! Deveria acordar às quatro horas da tarde e ainda achar que poderia ter dormido um pouco mais. Terminei de escovar os dentes na área de serviço, o tanque é muito mais agradável. Eu gosto de escovar os dentes olhando a vista do canal. Por que diabos eu vou querer ficar olhando para minha cara enquanto limpo a minha boca? Joguei uma água nos olhos. Deixei a escova por ali mesmo, depois a Sônia sempre acaba guardando pra mim. Falando nisso, a Sônia não estava em casa. Por que ela nunca está em casa na hora que eu quero tomar o café? Sempre me recusei a cozinhar, minha mãe detesta quando digo isso. Que coisa, nós pagamos uma pessoa para fazer isso, quero distância do fogão. Queria comer ovos mexidos e ninguém podia fazê-los para mim. Eu nunca tenho isso, acho uma frescura, mas estava com desejo de ovos mexidos.

Padaria Rio Lisboa. Era a minha salvação, o melhor café da manhã da redondeza. Coloquei uma bermuda relativamente descente, a blusa eu não tive saco de trocar, nem estava tão amassada assim. Se minha mãe tivesse em casa eu, com certeza, teria trocado, mas aproveitando que ela não estava, saí com a que estava usando para dormir mesmo, blusa de uma academia de ginástica do subúrbio. Por que será que eu tinha aquela blusa? Acho que tinha ganhado da minha vizinha, a Dona Graça, uma moradora do terceiro andar, mais especificamente, uma moradora do trezentos e dois. Ela de vez em quando me dava as roupas que foram dos sobrinhos dela.

Dentro do elevador, reparei que minhas havaianas estavam meio acabadinhas, um tanto quanto gastas. Dane-se, quem ia ficar reparando em mim? Ou será que reparariam? Não sei porquê, notei um tom sarcástico na voz do porteiro ao me cumprimentar. Deve ter reparado nos meus chinelos. Será que chamavam tanta atenção assim? Saindo do prédio, quem passa por mim? Dona Graça – bom dia, meu filho – falou com um risinho desagradavelmente preso, essa deve ter visto que estava usando a blusa que tinha me dado. Mas o problema era dela também, imagina se eu vou ficar me preocupando com meu porteiro e minha vizinha! Me preocupei um pouco mais quando o mendigo me apontou gargalhando, que merda estava acontecendo comigo? Mas ainda estava acreditando na filosofia do foda-se!

No caminho até a Rio Lisboa, me senti um pouco mal, parei de encarar as pessoas nos olhos. Se quisessem reparar na minha roupa o problema era delas! Eu estava feliz indo comer meu café da manhã.

Sentei no balcão e não gostei da expressão que o atendente fez pra mim, será que eu estava parecendo um mendigo? Estava tão exagerado assim? Que coisa chata, pessoas que não conseguem olhar para o próprio umbigo. Fingi que não estava ligando e comi meus ovos mexidos e meu café-com-leite, como qualquer outra pessoa que estivesse ali. Na hora de pagar tive uma revelação desagradável – pus a mão no bolso e notei que minha chave havia ficado em casa. Pelo menos o dinheiro eu tinha levado. Eu teria que ficar na rua até que horas? Que saco. Passei a mão na cabeça para me consolar. Não foi legal. Outra revelação, duas coisas bem chatas em tão pouco tempo, realmente não foi legal. Me virei para me olhar no espelho e notar se o que havia sentido era real. Exatamente como tinha imaginado. Meus cabelos, de certa forma crespos, formavam uma pirâmide no topo da minha cabeça. Era um tanto quanto nojento. Que desagradável! Meu Deus, quanta coisa desagradável em um dia só. Fiquei alguns segundos me olhando no espelho e pude notar que os risinhos pioraram. Acho até que a mulher do caixa disse algo como – ele acabou de reparar, deve ter acordado assim – mulher intrometida! Eu não a mandei à merda.

Bom, acho que a saída seria a praia, não? Precisava molhar essa carapinha! Que coisa horrível, tinha uma pirâmide capilar na extremidade do meu corpo! E pior! Além de ter uma pirâmide capilar na extremidade do meu corpo, eu estava sem a chave de casa. Fui andando pelo Leblon com uma cara não exatamente feliz. Cheguei na General Venâncio Flores e dei de cara com um bar, vazio, não tinha nenhum cliente, só um garçom feio e narigudo rindo de mim e tossindo ao mesmo tempo. Olha, eu já tinha me acostumado com pessoas rindo de mim, mas nenhum tinha rido e tossido ao mesmo tempo.

Me aproximei daquele infeliz. Nelson. O nome que estava no crachá era Nelson. Quanto mais perto eu chegava, mais ele ria da minha escultura exótica. Encarei aquele infeliz nos olhos e, desagradavelmente, senti respingos de perdigotos em meu rosto. Gritei bem alto:
-Vai à merdaaaaaaaaaaa!

Me aliviei. Mas não foi legal. Ele começou a tossir três vezes mais, só que agora era de susto. Eu dei um susto nele. Legal, tinha assustado aquele desgraçado, só que ele estava tossindo demais, tinha uma expressão desesperadora. Não me agradou vê-lo caindo devagar no chão. Primeiro os joelhos, depois a barriga e, então, a cabeça, como nos desenhos japoneses. Antes da cabeça bater no chão, ele deu uma ultima tossida e parou. Ficou lá estendido. Ninguém tinha visto, o homem morreu de tosse. O garçom do bar, o garçom Nelson tinha morrido de tosse na minha frente.

Fui embora para casa, esperançoso de que a Sônia já estivesse lá, antes que alguém visse aquele corpo estendido e me acusasse de homicídio. Fiquei tão impressionado que até me esqueci da minha cabeça. No caminho me senti um pouco mal. Me permiti chegar à conclusão de que meu dia seria muito melhor se eu tivesse beijado aquele sapo. Maldito despertador!
FIM.

29 agosto 2008

O dia em que conheci o garçom Nelson
14 de dezembro


Estava andando pelo Leblon e resolvi refletir. Eu acho que não sou dos adolescentes mais normais, eu definitivamente não sou. Têm pessoas que fazem yoga, outras procuram centro espírita, eu gosto de refletir andando. Eu moro no Leblon, na minha opinião, o melhor lugar para se viver do Rio de Janeiro. Admito que não morei em todos os outros bairros do município para afirmar com tanta convicção, mas é o melhor sim, isso é sabido! Eu não preciso ser morador da Tijuca ou do Jardim Botânico pra saber que não quero morar lá. O bairro me agrada. Sem excluir os moradores dos outros bairros, quem nunca, caminhando pelo Leblon em um dia qualquer, desses que você chega a procurar o que fazer devido ao tédio, se sentiu um personagem do Manoel Carlos? Isso é divertido, eu gostaria de ser um personagem do Manoel Carlos, menos a Helena. Por dois motivos. Primeiro que não estou a fim de me travestir, gosto de ser hétero. E segundo que a Helena é uma mala (além de ser feita sempre pelas piores atrizes da novela, salvo a Regina Duarte). Enfim, eu gosto do Leblon e também do Manoel Carlos. Sou morador da General Artigas há dez anos (moramos eu e minha mãe), a rua da Rio Lisboa (a padaria). Moro nesse mesmo local desde os meus sete anos de idade e, desde aquela época, já não era muito normal. Hoje tenho dezessete e não consigo terminar a história que comecei na primeira frase do texto. Não sou normal, não. Enfim...
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Estava andando pelo Leblon e resolvi refletir. Não sei por qual motivo, comecei a pensar na Dona Graça, uma moradora do meu prédio. Nenhum porteiro sabe dizer desde quando aquela mulher mora lá. A eterna moradora do terceiro andar. Meio chatinha, mas também não oferece perigo. Uma coroa inofensiva. Coroa não, uma velha inofensiva. Ela pode ser chamada até de idosa, uma idosa inofensiva. Uma vez ela deu uma festa no trezentos e dois só com velhas e velhos, foi até divertido porque os velhos começaram a se embebedar e dançar funk. De quem será que era o cd de funk? Enfim...
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Estava andando pelo Leblon e resolvi refletir. Eu estava de férias do meu supletivo no CEL, para uns, Centro Educacional da Lagoa e para outros, Centro de Entretenimento e Lazer. Definitivamente, para mim era Centro de Entretenimento e Lazer. Meus amigos estavam quase todos viajando e eu fiquei por aqui, não faço a menor idéia do motivo. Estava realmente entediado caminhando pelas calçadas de pedra portuguesa. Enfim...
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Estava andando pelo Leblon e, depois de pensar no Manoel Carlos, na Rio Lisboa, na moradora do trezentos e dois, na festa de funk para idosos, nas minhas férias e no meu supletivo, resolvi refletir. Era dia quatorze de dezembro, calor no Rio de Janeiro, muito calor. Tive uma das visões mais desagradáveis da minha vida, mas antes parei em um bar na Rua General Venâncio Flores para tomar uma cervejinha. Parei ali pelo balcão mesmo, acho que me passaria por autista sentado sozinho em uma mesa numa tarde de sol de dezembro. Fiquei no balcão. Eu estava gostando do balcão. Fala – foi a maneira sutil que fui atendido pelo simpaticíssimo garçom do bar. O nome dele era Nelson, estava escrito no crachá. Um cara estranhíssimo, com um nariz enorme e cheiro não muito bom. Eu não respondi, podia não ser comigo. Ele encheu os pulmões e com força repetiu – fala! – um pouquinho menos sutil. Eu disse – fala! – cumprimentando um desconhecido. Vai querer o quê – me perguntou com, eu gosto de acreditar nisso, um pequenino sorriso no canto esquerdo da boca.
- Eu?
- Você está de sacanagem?
- O senhor não deveria ser tão ríspido com seus clientes.
- Eu não agüento mais os meus clientes!
- Então por que o senhor trabalha aqui?
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Eu não queria estar envolvido com isso, realmente não queria. É aí que entra a tal visão mais desagradável da minha vida. O garçom Nelson tirou uma arma do seu bolso direito e, sem pensar nem refletir muito, puxou o gatilho em sua própria boca. Normal, para um personagem do Manoel Carlos talvez fosse normal, mas, para um adolescente, julgado por si mesmo, desequilibrado, que sobrou no Rio de Janeiro durante as férias de dezembro, isso não era legal. Era bem desagradável. Eu, com minha leve vontade de beber uma cerveja, dei o pontapé para a morte de um homem. Contribuí para a morte de Nelson. Logo a multidão já havia juntado em torno do bar querendo saber o que tinha acontecido. Enfim...
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Fui andando para minha casa, tentando refletir e me tocando de que nem maior de idade eu era para sentar no balcão de um bar e pedir uma cerveja para qualquer narigudo que me dissesse – fala!
FIM.